domingo, 5 de janeiro de 2014

Eu recobro a consciência nas noites frias de inverno e acabo sucumbindo à coma novamente nas tardes lancinantes que afligem o meu leito naquele hospital imundo. Eu tento me eternizar nos retratos que minha mãe tira em sua câmera velha, mas a única coisa que consigo enxergar é o corpo raquítico e os olhos feito fendas, que foi o que minha magreza estúpida me tornou. Às vezes eu me pergunto se o que eu tenho é anorexia, mas acabo descobrindo que, afinal, o meu mal é a solidão que é o pior de todas as desgraças. Meus cabelos caem como cachoeira conforme eu passo meus dedos e eu os observo como uma mãe preza por seu filho doente. Mas, a diferença é que o doente sou eu mesmo, ou melhor, minha alma. As gargalhadas que chegam aos meu ouvidos fazem minhas lágrimas correrem mais depressa, o que torna a minha dor mais verdadeira e duradoura. Meus pés calejados andam sobre os cacos de meu próprio âmago e sangram conforme minha saudade se refaz e se torna um monstro inultrapassável. Enquanto meus pais brigam na sala de estar eu tento me encontrar em meu próprio corpo e percebo que os cortes em meu rosto estão cada vez mais fundos, porque fui flagelado por minha própria consciência. Tanto faz. A solidão entra em meu corpo e se instala como um hóspede indesejado, um ser parasitário que se aproveita até o último fôlego de vida e isso me mata aos poucos a cada dia. Eu gostaria de ficar, mas acabo sendo partida, eu gostaria de permanecer intacto, mas acabo transcendendo os próprios limites da razão, me afogo em meus próprios medos e me acabo em meus próprios pesadelos. Eu passo e ninguém vê, sou efêmero e ninguém se importa. Isso transluz em meu próprio espírito abatido. Porque eu nasci pra ser estrela-do-mar, mas acabei me tornando estrela cadente.

{Filipe Ramalheiro}

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