quarta-feira, 5 de setembro de 2018

         Por que eu vejo as pessoas nas fotos do meu quarto sorrindo pra mim se me sinto tão sozinha nesse momento? Na luz fraca do meu quarto eu encaro as paredes. O vinho já começa a fazer efeito e, de repente, eu passo a chorar ouvindo minha música favorita tocando ao fundo.
         Eu ouço passos se aproximando lá fora e só quero que não cheguem à minha porta. Eu só não quero mais um fio dando nó na minha cabeça. Só não quero mais vozes me culpando na minha cabeça. Deixem minha cabeça em paz!
         Cada crise que o abrir da maçaneta traz me afunda mais e traz tanta dor que eu penso se dessa vez vou aguentar. Eu vejo as pessoas tentando chegar até mim, eu sinto o calor ali próximo, mas eu mesma construo muros de gelo ao meu redor... Então é assim que a dor constrói sua fortaleza? Um som fúnebre ao fundo que embala os piores pensamentos.
          A caneta parada na mão porque eu não sei o que passa na minha cabeça. Eu não sei o que passa no meu coração, a não ser a vontade urgente de não estar aqui nesse lugar, encarrando as fotos na luz fraca do meu quarto.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Cold pain
I cannot sustain it
That's what I'm thinking
Not what I'm drinking
I hold up my ways
These thoughts are pervasive
It's not a statement
But peace can be evasive

domingo, 12 de agosto de 2018

Você segue no escuro, pisando pé por pé, cuidando pra não pisar em cada pedaço seu que está no chão, tentando não chutar pra mais longe ainda as poucas esperanças que você deixou cair. Você acorda e se eriça com o frio que faz lá fora, mas sabe que nada é mais gelado que o frio que traz dentro do peito. Você percebe que desmoronar se tornou um hábito e não consegue mais esconder o vazio por trás de meros sorrisos. Você percebe que sóbria não consegue seguir, mas quando "alta" só faz retroceder. De repente, quando você chega em algum ponto, descobre que nunca saiu do lugar. 
E assim não se move.
Inerte.
Sem vida.

quinta-feira, 19 de julho de 2018


Debaixo d'água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido. Só faltava respirar. Tinha que respirar. Debaixo d'água se formando como um feto, sereno, confortável, amado, completo, sem chão, sem teto sem contato com o ar. Mas tinha que respirar, todo dia. Debaixo d'água por enquanto sem sorriso e sem pranto, sem lamento e sem saber o quanto esse momento poderia durar. Mas tinha que respirar. Debaixo d'água ficaria para sempre, ficaria contente, longe de toda gente para sempre no fundo do mar. Mas tinha que respirar, todo dia. Debaixo d'água protegido, salvo, fora de perigo, aliviado, sem perdão e sem pecado, sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar. Mas tinha que respirar. Todo dia.

{Debaixo d'água - Maria Bethânia}
Quando você já está morta por dentro acha que nada que venha de fora pode te machucar mais. Faz coisas a si mesma pra descobrir o que ainda consegue sentir. Você segue assim, achando que nada mais pode te ferir, que você já está completamente acabada. E aí vem uma palavra dura, um gesto impensado, uma atitude egoísta, uma decepção e te derrubam mais uma vez. É mais um soco no estômago, que está vazio depois de você ter vomitado as suas borboletas. E após cada golpe, seja ele com punhal ou com flores, a dor é intensificada até que você apaga. Você acorda em um novo dia e novamente não está vivendo, não está sentindo. Depois de dias percebe que afinal você é Nina com seu coração perdido, mas não acredita mais em contos e duvida que a peça tenha um final feliz.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Mais uma noite e estou aqui me perguntando se algum dia encontrarei um lugar ao qual eu pertença. Me perguntando se um dia vou deixar de sentir que sou um peso pra todas as pessoas ao meu redor e não precisar pedir por amor. Viver tem tido um peso tão grande que eu só queria poder me recolher e esperar toda essa tempestade passar. Mas a tempestade está dentro de mim e o sol não quer aparecer. É sempre noite aqui dentro, porém não tem luar, não tem um céu estrelado e os trovões não me deixam descansar. Quando aparece um raio de sol, ele logo é encoberto por uma nuvem carregada e a chuva gelada apaga qualquer faísca que tente se acender. Quando eu tento fugir, o vento gelado é mais veloz e me acompanha fustigando meu corpo e qualquer tentativa de seguir é em vão. Presa em mim mesma, estou afundando e a superfície está se distanciando a cada respirada.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Estou no limbo

No limbo entre muito pensar e em nada pensar. No limbo sobre seguir ou retroceder. É possível que eu esteja no limbo sobre mim mesma? Estou cansada. Cansei. Estou cansada... Pra onde fugir se a nada pertenço? Pra onde correr se minhas pernas não me acompanham, vencidas pelo cansaço? Pra quem gritar se minha voz já não emite som algum? No que me agarrar, se meus braços não formam laços? Quando foi que me tornei esse ser morto que apenas segue o fluxo, existindo ao invés de viver? Sinto falta do calor do meu próprio sorriso. Sinto falta da minha alegria em compartilhar o mundo com os que nele habitam. 
Eu sinto falta de mim. E esse é o pior vazio que alguém pode sentir.


{Vanessa Martins, ou alguém que eu costumava ser}
 Deitada no velho piso de madeira, sentia-se tão sobrecarregada que ao respirar e inspirar, desejava que o oxigênio, ao adentrar na sua matéria, aliviasse aquele cansaço mental que vinha sufocando-a dia após dia. Ao longe, escutava a senhora cigarra gritando constantemente contra a noite, sentira vontade de atirar tudo para fora, as turbulências que vinham acontecendo no seu interior, já haviam corrompido e danificado seus sentimentos existenciais. A única solução seria cantar seu próprio funeral, para que os quatro cantos da vida ouvissem suas lamentações, e que ao explodir, suas partículas e fragmentos ficassem pairando pelo ar, esperando para serem usadas como confete pela solidão.

{Luísa Santos} 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Cheguei ao fundo do poço
A queda tinha um gosto amargo
O tombo não quebrou nenhum osso
Mas algo aqui dentro deixou de existir

Caída na escuridão gelada
Só vejo a sombra me engolindo
E eu a aceito e abraço
Como única amiga que tenho
Há muito tempo

Na escuridão não vejo nem sinto nada
Não sinto a dor lacerante no peito
Não vejo a ausência ao meu lado

Não digo e não ouço nada
Não ouço o desespero gritante da minha mente
Não grito mais pro nada como fiz antes de cair

Aqui encontrei o sossego que meu peito ansiava
Não preciso sorrir pra esconder a dor e a confusão
Não preciso esconder meu desejo de não mais acordar

Eu só quero ficar em paz


- Vanessa Cristina Martins