quinta-feira, 19 de julho de 2018


Debaixo d'água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido. Só faltava respirar. Tinha que respirar. Debaixo d'água se formando como um feto, sereno, confortável, amado, completo, sem chão, sem teto sem contato com o ar. Mas tinha que respirar, todo dia. Debaixo d'água por enquanto sem sorriso e sem pranto, sem lamento e sem saber o quanto esse momento poderia durar. Mas tinha que respirar. Debaixo d'água ficaria para sempre, ficaria contente, longe de toda gente para sempre no fundo do mar. Mas tinha que respirar, todo dia. Debaixo d'água protegido, salvo, fora de perigo, aliviado, sem perdão e sem pecado, sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar. Mas tinha que respirar. Todo dia.

{Debaixo d'água - Maria Bethânia}
Quando você já está morta por dentro acha que nada que venha de fora pode te machucar mais. Faz coisas a si mesma pra descobrir o que ainda consegue sentir. Você segue assim, achando que nada mais pode te ferir, que você já está completamente acabada. E aí vem uma palavra dura, um gesto impensado, uma atitude egoísta, uma decepção e te derrubam mais uma vez. É mais um soco no estômago, que está vazio depois de você ter vomitado as suas borboletas. E após cada golpe, seja ele com punhal ou com flores, a dor é intensificada até que você apaga. Você acorda em um novo dia e novamente não está vivendo, não está sentindo. Depois de anos percebe que afinal você é Nina com seu coração perdido, mas não acredita mais em contos e duvida que a peça tenha um final feliz.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Mais uma noite e estou aqui me perguntando se algum dia encontrarei um lugar ao qual eu pertença. Me perguntando se um dia vou deixar de sentir que sou um peso pra todas as pessoas ao meu redor e não precisar pedir por amor. Viver tem tido um peso tão grande que eu só queria poder me recolher e esperar toda essa tempestade passar. Mas a tempestade está dentro de mim e o sol não quer aparecer. É sempre noite aqui dentro, porém não tem luar, não tem um céu estrelado e os trovões não me deixam descansar. Quando aparece um raio de sol, ele logo é encoberto por uma nuvem carregada e a chuva gelada apaga qualquer faísca que tente se acender. Quando eu tento fugir, o vento gelado é mais veloz e me acompanha fustigando meu corpo e qualquer tentativa de seguir é em vão. Presa em mim mesma, estou afundando e a superfície está se distanciando a cada respirada.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Estou no limbo

No limbo entre muito pensar e em nada pensar. No limbo sobre seguir ou retroceder. É possível que eu esteja no limbo sobre mim mesma? Estou cansada. Cansei. Estou cansada... Pra onde fugir se a nada pertenço? Pra onde correr se minhas pernas não me acompanham, vencidas pelo cansaço? Pra quem gritar se minha voz já não emite som algum? No que me agarrar, se meus braços não formam laços? Quando foi que me tornei esse ser morto que apenas segue o fluxo, existindo ao invés de viver? Sinto falta do calor do meu próprio sorriso. Sinto falta da minha alegria em compartilhar o mundo com os que nele habitam. 
Eu sinto falta de mim. E esse é o pior vazio que alguém pode sentir.


{Vanessa Martins, ou alguém que eu costumava ser}
 Deitada no velho piso de madeira, sentia-se tão sobrecarregada que ao respirar e inspirar, desejava que o oxigênio, ao adentrar na sua matéria, aliviasse aquele cansaço mental que vinha sufocando-a dia após dia. Ao longe, escutava a senhora cigarra gritando constantemente contra a noite, sentira vontade de atirar tudo para fora, as turbulências que vinham acontecendo no seu interior, já haviam corrompido e danificado seus sentimentos existenciais. A única solução seria cantar seu próprio funeral, para que os quatro cantos da vida ouvissem suas lamentações, e que ao explodir, suas partículas e fragmentos ficassem pairando pelo ar, esperando para serem usadas como confete pela solidão.

{Luísa Santos} 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Cheguei ao fundo do poço
A queda tinha um gosto amargo
O tombo não quebrou nenhum osso
Mas algo aqui dentro deixou de existir

Caída na escuridão gelada
Só vejo a sombra me engolindo
E eu a aceito e abraço
Como única amiga que tenho
Há muito tempo

Na escuridão não vejo nem sinto nada
Não sinto a dor lacerante no peito
Não vejo a ausência ao meu lado

Não digo e não ouço nada
Não ouço o desespero gritante da minha mente
Não grito mais pro nada como fiz antes de cair

Aqui encontrei o sossego que meu peito ansiava
Não preciso sorrir pra esconder a dor e a confusão
Não preciso esconder meu desejo de não mais acordar

Eu só quero ficar em paz


- Vanessa Cristina Martins

sábado, 15 de julho de 2017

Já começo dizendo que te amo
porque não cabe aqui pra guardar
e com todo o ar dos meus pulmões
eu tenho que te gritar

Num passado recente ainda presente
minhas atitudes te fizeram chorar
mas agora aqui do seu lado
as lágrimas tuas eu vou secar

O mundo é pouco e pequeno
pro que quero te dar
o amor que não cabe no meu peito
vai te fazer transbordar

Quando olho pros teus olhos
minhas cores preferidas vejo pintar
um dia te desenho meu sonho
e a tua beleza vou eternizar

Assim te amo
você é minha pulsar


{Vanessa Cristina Martins}

domingo, 14 de maio de 2017

Daughter - Smother



Sobre o frio que se instalou aqui dentro e a dor que eu causei: Sonhei com um caminhão esmagando minha cabeça e quando abri os olhos, como eu desejei que fosse real. Na escuridão vou ficar, pra luz não quero sair. Tem essa bolha de ar ao meu redor que não me deixa respirar. Tem esse rio de água salgada que escorre no meu rosto intermitentemente, mas não lava a dor e a culpa que me sufocam. Quero gritar, fugir, mas só consigo a escuridão. E assim vou afundando, fundo fundo fundo nos meus piores pesadelos, silenciosamente.

"Às vezes eu queria ter ficado dentro da minha mãe e nunca ter saído."



{Vanessa C.M.}


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Olhando pra cá
Estou aqui
Se olhar pra cá
Te faço até sorrir

Essa sombra no teu olhar
Não devia existir
Tuas mágoas tão intensas
Tiro eu se permitir

Chega o fim do dia
O cansaço vem pesar
Eu te proponho alegria
E no meu colo te ninar

Ó menina do olhar bonito
Isso aqui é pra falar:
Das coisas lindas que eu sinto
A mais bonita é te amar.

{Vanessa Cristina Martins}

sábado, 8 de abril de 2017

Lisbon Revisited- Álvaro de Campos


NÃO: Não quero nada. 
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões! 
A única conclusão é morrer. 


Não me tragam estéticas! 
Não me falem em moral! 

Tirem-me daqui a metafísica!  

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 
Das ciências, das artes, da civilização moderna! 

Que mal fiz eu aos deuses todos? 

Se têm a verdade, guardem-na! 
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.  

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 
Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 

Não me macem, por amor de Deus! 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
Assim, como sou, tenham paciência! 
Vão para o diabo sem mim, 
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 
Para que havemos de ir juntos? 


Não me peguem no braço! 
Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho.  
Já disse que sou sozinho! 
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 


Ó céu azul — o mesmo da minha infância — 
Eterna verdade vazia e perfeita!  
Ó macio Tejo ancestral e mudo, 
Pequena verdade onde o céu se reflete! 
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! 
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. 


Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo... 
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!


{Lisbon Revisited- Álvaro de Campos (l923)}