domingo, 14 de maio de 2017

Daughter - Smother



Sobre o frio que se instalou aqui dentro e a dor que eu causei: Sonhei com um caminhão esmagando minha cabeça e quando abri os olhos, como eu desejei que fosse real. Na escuridão vou ficar, pra luz não quero sair. Tem essa bolha de ar ao meu redor que não me deixa respirar. Tem esse rio de água salgada que escorre no meu rosto intermitentemente, mas não lava a dor e a culpa que me sufocam. Quero gritar, fugir, mas só consigo a escuridão. E assim vou afundando, fundo fundo fundo nos meus piores pesadelos, silenciosamente.

"Às vezes eu queria ter ficado dentro da minha mãe e nunca ter saído."



{Vanessa C.M.}


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Olhando pra cá
Estou aqui
Se olhar pra cá
Te faço até sorrir

Essa sombra no teu olhar
Não devia existir
Tuas mágoas tão intensas
Tiro eu se permitir

Chega o fim do dia
O cansaço vem pesar
Eu te proponho alegria
E no meu colo te ninar

Ó menina do olhar bonito
Isso aqui é pra falar:
Das coisas lindas que eu sinto
A mais bonita é te amar.

{Vanessa Cristina Martins}

sábado, 8 de abril de 2017

Lisbon Revisited- Álvaro de Campos


NÃO: Não quero nada. 
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões! 
A única conclusão é morrer. 


Não me tragam estéticas! 
Não me falem em moral! 

Tirem-me daqui a metafísica!  

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 
Das ciências, das artes, da civilização moderna! 

Que mal fiz eu aos deuses todos? 

Se têm a verdade, guardem-na! 
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.  

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 
Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 

Não me macem, por amor de Deus! 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
Assim, como sou, tenham paciência! 
Vão para o diabo sem mim, 
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 
Para que havemos de ir juntos? 


Não me peguem no braço! 
Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho.  
Já disse que sou sozinho! 
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 


Ó céu azul — o mesmo da minha infância — 
Eterna verdade vazia e perfeita!  
Ó macio Tejo ancestral e mudo, 
Pequena verdade onde o céu se reflete! 
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! 
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. 


Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo... 
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!


{Lisbon Revisited- Álvaro de Campos (l923)}

sábado, 4 de março de 2017

Eu sempre assim
Solidão fui sem fim
Nunca tão só metade
Sozinha era feliz de verdade

O tempo passou
E o amor (próprio) me encontrou
Ainda mais passei a me amar
Fui pra dentro de mim me encontrar

E foi assim
Inteira de mim
Que a chuva floriu
E meu muro assim se partiu

E foi lá no horizonte
Ao te ver cruzar minha ponte
Assim sem medo de mim
Brotou e floriu no meu jardim.


{Vanessa Cristina Martins- 07/02/2017)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017


"Eu me lembro de você ter falado alguma coisa sobre mim e logo hoje tudo isso vem à tona e me parece cair como uma luva. Agora no dia em que eu choro, eu tô chovendo muito mais do que lá fora. Lá fora é só água caindo enquanto aqui dentro, cai a chuva.
Enquanto ao que você me disse, eu me lembro sorrindo vendo você tão séria tentar me enquadrar se sou isso ou se eu sou aquilo e acabar indignada me achando totalmente impossível, talvez seja apenas isso... chovendo por dentro, impossível por fora.
Eu me lembro de você descontrolada tentando se explicar. Como é que a gente pode ser tanta coisa indefinível, tanta coisa diferente, sem saber que a beleza de tudo é a certeza de nada e que o talvez torne a vida um pouco mais atraente. E talvez a chuva, o cinza, o medo, a vida sejam como eu ou talvez porque você esteja, de repente, assistindo muita televisão e como um Deus que não se vê-se nunca,seu olhar não consegue perceber como uma chuva, uma tristeza podem ser uma beleza e o frio uma delicada forma de calor."


{Lobão}

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Andamos de mãos dadas pelo caminho de pão de mel até a floresta, sangue pingando de nossos dedos. Dançamos com bruxas e beijamos monstros. Nós nos transformamos nas garotas geladas e, quando ela tentou ir embora, eu a puxei de volta para a neve porque estava com medo de ficar sozinha.

{Garotas de Vidro- Laurie Halse Anderson, pg 98}

E quando o mar engoliu o sol, com o coração acelerado, cheio de cor e promessa, eu descobri como ser corajoso.
Eu estava um passo mais perto.
Naquele minuto o tempo parou e eu vi que há beleza em tudo que nós somos. E cada momento, cada suspiro, estava a minha frente.
Eu morreria todos os dias - para sempre - esperando por você. Pois, agora, eu sei, mil anos passarão e a promessa de pertencer ao hall de outro corpo, outra alma, permanece. Para os quatro cantos, hoje, eu grito:
-Sempre soube que te encontraria. Ouça, pois hoje eu não tenho mais medo. O tempo, regado pelas notas de Caetano, juntou teu coração ao meu.

{François}
Eu tenho ficado bem, meio que sem querer, sem intenção. Tenho olhado pra mim simplesmente, sem pressão, sem narcisismo, sem medo. Resumindo: eu tenho limpado meu espelho.  Sem peso e com uma certa liberdade, me sentindo eu, correr nu e livre por alguma das travessas do meu ser. Por que a vida não tem manual de instrução e eu fico muito perdido no meio de tudo.

{Do filme "Teus olhos meus}

Teu riso- Pablo Neruda

O teu riso
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
{Pablo Neruda}

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Mato

Mato!
Mato mais nada.
Nem peço ou pago para que matem.
Apenas mato.
No meu prato.
Mato para viver.
Mato para me re-conectar.
Mato para não matar.

{Matheus Prestes}